ISMAEL NERY

Exposição e Vendas nº 51
22 de setembro a 18 de novembro de 2017


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Entre o lirismo e a penumbra

Entre o lirismo e a penumbra

Olívio Tavares de Araújo

A crítica brasileira sempre foi unânime em apontar as várias excepcionalidades de Ismael Nery. Nascido em 1900 em Belém do Pará, falecido em 1934 no Rio (para ond fora trazido aos dois anos), poderia ter sido o participante caçula da Semana de Arte Moderna – Di Cavalcanti era apenas três anos mais velho. Mas não fazia a ponte ferroviári  Rio-São Paulo, como Di, nem se enturmava bem, como ele. No ano da Semana, casou-se com a futura escritora Adalgisa Nery e sua casa se tornou um pequeno cenáculo de intelectuais, entre os quais Murilo Mendes, o grande poeta – seu mais próximo e fidelíssimo amigo, a quem devemos a existência de grande parte de seus magníficos desenhos. Tuberculoso e frequentando sanatórios a partir dos 30 anos, Ismael os atirava às dezenas nos cestos de lixo. Quando possível, o próprio Murilo se encarregava de recolhê-los. Quando não, a enfermagem os recolhia, como combinado, e entregava  ao poeta, que os preservou cuidadosamente.

A casa de Nery era frequentada mais por gente das letras que das artes. Enquanto artista, ele se sabia um isolado, no Rio de Janeiro da época, hostil à arte nova; só em 1929 faria sua primeira exposição carioca. Por outro lado, o que desenhava ou pintava passava longe dos ideais que se consubstanciaram na Semana: nacionalismo e vanguardismo de linguagem. Não que Nery não conhecesse as vanguardas, pois em 1920 já estudara por um ano em Paris, lá retornando em 1927, quando frequentou o ateliê de Chagall e encontrou André Breton. É que seu intenso lirismo e sua elegância espiritual não lhe permitiam tornar-se iconoclasta e fazer arte de difícil entendimento. Tinha necessidade  de se comunicar através do trabalho, por mais intimista ou até introspectivo que este fosse. Várias tendências da época contribuíram para sua linguagem, combinando- se umas com as outras; o cubismo, o surrealismo, um expressionismo contido  Nenhuma de maneira radical.

Para Nery, nunca se tratou, na verdade, de abandonar a representação da realidade exterior em prol da pintura pura, como para a arte moderna em geral – mesmo porque essa realidade não fazia parte de sua obra. Não há nela Brasil nem país algum. É atemporal e supranacional. Não lhe conheço uma única natureza-morta e as raras paisagens aparecem apenas como fundos para figuras humanas, quase sempre  imaginárias. Quando não, são autorretratos e retratos de Adalgisa, que simbolizam o homem e a mulher. O rosto e o corpo humano em sua universalidade são seus temas pode dizer-se exclusivos. A questão do duplo percorre-lhe toda a produção, seja sob a forma do casal, unido ou separado, seja pela divisão, pela partição do mesmo corpo; ou ainda pelo corpo acompanhado de seu(s) fantasma(s). Nos desenhos fica particularmente claro (mas nas pinturas também) que as obras se resolvem por decisões rápidas e certeiras, obedecendo a uma mão, um cérebro e um talento seguros. O traço é de virtuose.

Sem dúvida Nery era uma personalidade complexa, vinda de uma família especialmente neurótica. Ao enviuvar cedo, sua mãe passou a usar permanentemente um hábito de freira e a se autodenominar Irmã Verônica, percorrendo e assombrando a casa a pronunciar frases desconexas. Não sabemos em detalhes por que, mas Ismael certamente sabia, ao afirmar: “Ela me construiu e me destruiu”. Também a relação com Adalgisa, uma linda mulher, parece que era complicada e incluía muitas brigas. Poeta bissexto (bom poeta, segundo Murilo Mendes), além de na arte, igualmente na poesia deu vazão a suas tragédias. Eis um poema tocante, de 1933:

“A minha angústia aumentará em meus filhos – Angústia que herdei de meus pais e meus avós Angústia que dia a dia se torna universal Desde o dia em que Caim assassinou Abel. Morrerei de sede como meu xará da Bíblia Mas não num deserto como o filho da escrava. A minha sede é mil vezes pior do que a dele. É uma sede que não é de água, É uma sede insaciável Que aumenta à medida que eu bebo E que não me dá a esperança de morrer já”. Contudo já estava gravemente doente e morreu pouco depois.

A despeito de tudo isso, Nery era também uma pessoa excepcional em aspectos nãotrágicos. Bonito, com sangue de índio e olhos puxados, alto, espadaúdo (praticara o esporte do remo), vestia-se com grande elegância, segundo Murilo era bom dançarino, e extremamente cortês. Muito inteligente, inventara uma filosofia própria a que deu o nome de “essencialismo” e que discutia com os amigos. Conhecia as teorias correntes sobre a mente, inclusive algo de Freud. Interessava-se por todos os assuntos, inclusive os prosaicos. Coisas assim equilibraram, digamos, sua obra, impedindo que ela se tornasse sistematicamente pessimista ou soturna. Pelo contrário. É sempre sedutora. O crítico Roberto Pontual, que escrevia muito bem, ressalta-lhe as ambivalências, a “mergulhar nos voos ou nos subterrâneos da alma, entre o luminoso e o obscuro, o lirismo e a penumbra, o mundo concreto e o metafísico”. Não sei quando a doença começa, mas aos 29 anos Nery está tuberculoso e sua obra passa a refleti-lo. Torna-se, então, mais surrealista, daquele tipo de surrealismo que arrebenta a figura humana. Não se trata mais de fantasias oníricas um pouco à la Chagall, nem de erotismos suaves. O desfazimento do corpo do autor se metaforiza em imagens viscerais. Algumas referências vegetais e numerosos membros, músculos, veias, nervos e órgãos estouram à tona. Referindo-se a essa produção, por certo com  ênfase poética – não exprimindo uma reação dele, mas um conteúdo dela –, Roberto  Pontual emprega até o termo nojo. Não é o simples nojo do vômito e sim o da nausée sartreana. O mesmo daquele arrepiante final do poema A Flor e a Náusea, de Carlos  Drummond de Andrade: “Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde / e lentamente passo a mão nessa forma insegura. / Do lado das montanhas, nuvens  maciças avolumam-se. / Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. / É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Assim também Nery sobrepassava os escolhos e fazia brotar de suas peculiaridades, de suas neuroses, de sua nausée e, no final, de suas vísceras à mostra, as flores (não obstante tão belas) de sua obra. A rigor, muito poucos artistas brasileiros caminharam à beira de abismos tão perigosos. Farnese de Andrade, talvez Flavio-Shiró, o Iberê Camargo da última fase também trataram da angústia metafísica e da morte. Quem mais? Durante décadas Nery ficou quase esquecido. Foi necessário surgir um público para ele. Hoje, goza das glórias de sua individualidade, fora do mainstream do modernismo e ao mesmo tempo como um de seus pontos culminantes. Parafraseando uma afirmativa de T.S. Eliot (ou será de Pound?) sobre Dante, cada rabisco dele é importante porque é de Ismael Nery.

Olívio Tavares de Araújo

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