RECORTE MODERNISTA

Exposição e Vendas nº 50
22 de setembro a 18 de novembro de 2017


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O papel dos modernistas

O papel dos modernistas

Sabe-se que em épocas de crise todos procuram estabilidade e segurança. Assim acontece também no mercado de arte, quando os colecionadores se voltam para os clássicos, os valores já firmados na história. Esta é uma exposição dos clássicos do modernismo no Brasil, entendendo-se modernismo em sentido amplo. Vai de Anita Malfatti, sua protomártir em 1917, até o começo do abstracionismo, com Antônio Bandeira, nos anos 1950. Entre esses extremos, os grandes nomes como Di Cavalcanti,Tarsila, Portinari, Volpi, Gomide, Segall e – constituindo na verdade uma sala especial,uma outra exposição em separado, com outro catálogo – Ismael Nery. Há muito tempo não se reúne um conjunto tão importante e expressivo do grande Nery, com 25 obras,das quais várias participaram de Bienais e exposições em museus. Para a galeria, aocompletar 22 anos, é uma honra e um prazer fazê-lo.

As duas exposições constam de arte sobre papel – ora desenho propriamente dito,ora pintura (porque também se pinta sobre papel). No Brasil, percebemos que em geral o papel como suporte não tem, infelizmente, o prestígio que tem em todo o primeiro  mundo  e mesmo nas coleções brasileiras de maior importância. As de Gilberto  Chateaubriand e de Hecilda e Sérgio Fadel, as mais completas e famosas, são ricas   em papeis. Creio que há um preconceito a cercar esse tipo de produção, supondo-se– inexatamente – que o papel é mais frágil, mais perecível, mais inadequado que a  tela para a longa duração. É verdade que ele exige cuidados, mas a tela também: mal  conservada, ela se deteriorará. Museus especializados, como o Albertina, em Viena, e o próprio Museu do Vaticano, têm monumentais coleções de papeis feitos há séculos que resistem perfeitamente. Por outro lado, talvez exista também a falsa noção de que esteticamente a obra sobre papel é menos nobre, menos completa que a pintura ou a escultura. Isso nem precisa ser discutido. É uma ideia superada, já que hoje todas as hierarquias foram abolidas e as novas técnicas são mais numerosas que as antigas.Com certeza absoluta, um bom papel é mais importante, vale mais a pena, que uma pintura medíocre. Enriquece-nos, em vez de apenas enfeitar uma parede.

Há duas exceções às regras nesta mostra. Primeiro, a inclusão de um desenho-quase  pintura de um não brasileiro da mesma época do nosso modernismo: Diego Rivera, o mais ilustre muralista mexicano. É que, tendo surgido a oportunidade de mostrá-lo, a galeria não poderia deixar passá-la: é um trabalho excepcional, de grande força expressiva.  Segundo, a presença de uma escultura de Victor Brecheret. Além de, por sua qualidade, constituir uma obra para museus, aqui ela está absolutamente oportuna e  justificada. Trata-se de um retrato de Dona Olívia Guedes Penteado, a grande patrona do modernismo brasileiro. Certamente a aura dessa peça e a memória benfazeja de Dona Olívia trazem bons augúrios e contribuirão para o sucesso da exposição.

Ricardo Camargo



Significativos mestres do modernismo

 

Significativos mestres do modernismo

Olívio Tavares de Araújo

Sabemos todos que a arte moderna brasileira tem uma data oficial de nascimento: a famosa Semana de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, reunindo poesia,artes plásticas e música.  Claro, todo marco desse tipo é uma convenção. A história não se faz por compartimentos estanques e sim num processo contínuo, no qual, a posteriori, o historiador é que introduz cesuras com finalidade didática. Contudo, a Semana tinha mesmo o propósito de romper agressivamente com o passado, e a partir dela instalou-se no Brasil um projeto político-estético: fazer arte nacional numa linguagem internacional e aggiornata, sintonizada com a da contemporaneidade europeia.

Di Cavalcanti e Tarsila foram os primeiros a conseguir essa síntese, ainda nos anos 20– ela mais radicalmente que ele, de início na fase pau-brasil, claramente marcada pelo cubismo, depois na antropofagia, de filiação surrealista

O mesmo projeto continuou valendo por um quarto de século, até que a Bienal de São Paulo (outro marco) introduzisse novos horizontes. Destarte o título de modernista– que originalmente se aplicou aos que participaram da Semana ou lhe estiveram próximos: Villa-Lobos, Mário e Oswald de Andrade, Victor Brecheret, Anita Malfatti, DiCavalcanti, Tarsila – pode ampliar-se e designar uma atitude, uma postura, estendendo seu prestígio a todos aqueles que chegaram à maturidade artística entre 1925 e 50. A começar por mestre Volpi. Decididamente, ninguém menos modernista, em sentido estrito, que ele. Os modernistas pertenciam ao patriciado paulista (sua Semana foi patrocinada pelos barões do café), viajavam, estavam a par do que se passava no mundo e desejavam-se de vanguarda. Enquanto isso, em 1922 o imigrante italiano Alfredo Volpi, homem simples e de poucas palavras, de pouca escolaridade, vestindo macacão e calçando tamancos, carregava os baldes de cal com que ia pintar paredes. Só surgiria para a história em meados dos anos 1930, dentro do Grupo Santa Helena, formado porartistas de origem popular, do qual ele se tornaria o membro mais ilustre.

Porém o verdadeiro talento não tem nada a ver com classe social e supera todo tipo de barreira. É consensual que a revolução basilar na pintura do século XX, o ponto de partidapara a modernidade em todas suas tendências, foi o abandono da representação realista em prol dos valores puramente pictóricos – cor, forma, matéria, gesto, pincelada –, até desaguar no abstracionismo. Por isso, basta ver o quadro de Volpi nesta exposição (provavelmente do começo da década de 40 – ele não os datava), para se ter certeza de que sua obra sempre foi espantosamente moderna, corajosa, intuitivamente requintada e bela.

 Predominou a música de Villa-Lobos. A grande Guiomar Novaes, que já era internacionalmente consagrada, tocou Chopin e se retirou após o segundo ou terceiro dia, com uma carta de protesto pelo desrespeito com que a obra dele fora tratada pelo público. Misturado à seriedade, havia um clima de farra, de rebeldia, típico desse tipo de evento. Aplausos e apupos.

Mestre foi também Lasar Segall, que esteve de visita ao Brasil em 1913 e realizou aprimeira exposição moderna no país, dez anos antes de imigrar em definitivo. Judeu lituano marcado pelos pogroms e pela primeira guerra mundial, foi um humanista trágico, na verdade menos preocupado com a brasilidade que com a dor universal. Se bem que sua pintura não tenha ignorado seu país de adoção: aflorou-lhe alguns temas e certamente clareou, aqui, sua densa palheta europeia. Mestre foi, igualmente, Tarsila, que não participou da Semana porque estava estudando em Paris, mas ao voltar se integrou perfeitamente ao grupo e se tornou sua primeira-dama, inclusive casando-se com Oswald de Andrade. Por uma questão de analogia visual, logo após a obra de Tarsila aparece neste catálogo uma poderosa aquarela do mais ilustre dos muralistas mexicanos, Diego Rivera. É a imagem de uma camponesa vergada caminhando entre troncos e galhos de árvores descarnadas, os quais o engajamento social do artista humaniza e transforma em braços e mãos imprecando aos céus. Grande mestre, enfim, o escultor Victor Brecheret, autor de uma obra da mais refinada elegância. Vivendo na Europa entre 1921 e 32 foi um dos próprios formatadores do estilo art deco internacional, não um mero epígono ou diluidor dele. Um estudo cuidadoso de datas afiança tal afirmação. Abrindo uma exceção no conjunto de papéis da presente mostra, encontra-se uma escultura de Brecheret. Constitui aqui uma espécie de ícone auspicioso, já que se trata de um retrato de Dona Olívia Guedes Penteado, a grande patrona do modernismo.

Menos afortunada revela-se a trajetória de Anita Malfatti. Em 1917 fez uma exposição de obras vigorosas, marcadas pelo expressionismo alemão, com o qual convivera quando estudava em Berlim. (A propósito: no modernismo brasileiro só Anita e Segall tiveram filiação estética alemã; a grande matriz foi sempre a francesa, e dentro dela o cubismo, que Tarsila denominou “o serviço militar obrigatório do artista”). Todos sabem que nosso de resto tão querido Monteiro Lobato, pintor amador e ocasional crítico de arte, demoliu pelos jornais a exposição de Anita, chamou-a de paranoica ou mistificadora, e acabou por arrasar-lhe, junto, a vocação de vanguarda. Tímida e frágil, ela fraquejou e voltou a uma figuração de fundamento tradicional, resgatando sobretudo temas brasileiros com uma poesia falsamente ingênua. Seja como for, sua importância histórica de protomártir do modernismo (como a chamou Lourival Gomes Machado) e suas qualidades artísticas estão permanentemente asseguradas.

Também o estão as de Antônio Gomide, de formação e longa vivência europeias, que conheceu Picasso e começou sob a influência do cubismo; de volta ao Brasil, desenvolveu um estilo fortemente marcado pelo art deco, tornando-se seu representante mais típico, aqui, depois de Brecheret. É o caso ainda de Ferrignac (Ignácio da CostaFerreira), ilustrador e desenhista dono de um traço fluente e expressivo, que participouda Semana. E, enfim, o do iconoclasta Flávio de Carvalho, famoso desde que na década de 1950 desfilou pelas ruas de São Paulo vestido de saiote e com meias arrastão, lançando o traje de verão por ele inventado para o homem brasileiro. Flávio –arquiteto, desenhista e pintor original, um dos poucos autênticos quase-surrealistas,entre nós – sempre foi um contestador. Meio século antes da invenção da performance e do happening, resolveu um dia caminhar por dentro de uma procissão, de chapéu e em sentido oposto ao do fluxo, como experiência sociológico-estética que depois transformou em livro; só a chegada da polícia o salvou de apanhar. Importante é que sua iconoclastia não era para esconder carências: ele dominava as técnicas perfeitamente.

Todos os citados até agora nasceram no século XIX – são também geracionalmente modernistas. Não é o caso do mais famoso pintor brasileiro da primeira metade do século XX, com cujo nome o público identificava a própria noção de modernismo: Cândido Portinari, nascido em 1903 no interior do estado de São Paulo, filho de imigrantes italianos muito pobres. Já por isso estaria distante da Semana. Ademais mudou-se cedo para o Rio, onde fez sua carreira. Muito a ajudou o fato de que o Estado Novo, o regime ditatorial de Getúlio Vargas de 1937 a 1945, o tenha cumulado de encomendas. Entre os anos 1960 e 80 tornou-se corrente acusá-lo de pintor oficial. Está claro hoje que é uma acusação precipitada, de quem nem olhou direito para a mais ‘oficial’ produção de Portinari: o conjunto de murais sobre os ciclos econômicos, no atual Palácio da Cultura, no Rio. Mostram uma gente triste, sofrida, alquebrada sob o peso da pobreza e do trabalho. Nada têm da pintura ufanista, triunfalista, dos regimes totalitários da Europa na mesma época. Não fazem propaganda. Pode-se até dizer que são arte engajada – o exato oposto da arte oficial. Provam sobejamente a segurança, proficiência técnica e expressividade dominada de Portinari, qualidades que aparecem até no mais simples esboço.

Completam o elenco de nascidos no século XX Cícero Dias, Djanira (da Motta e Silva)e Antônio Bandeira. A mudança de Cícero para a Europa, na segunda metade da década de 30, não fez bem à sua arte. Para se tornar up to date, acabou aderindo à abstração geométrica e perdeu a poesia de suas maravilhosas aquarelas figurativas anteriores à viagem. São fantasiosas, mágicas e líricas, tocadas pelo surrealismo e não raro levemente melancólicas. Também há fantasia, lirismo e certa simplificação de formas em Djanira, motivos pelos quais sua pintura chegou a ser tida como naïf. Mas é uma leitura inexata. Observando bem, percebe-se que a simplificação em Djanira resulta de uma redução de espírito construtivista, de uma vontade de organização, não da figuração inexperta dos primitivos. Com suas tramas ritmadas de cores, o sensível Antônio Bandeira encerra este parágrafo e a exposição, sendo o único representante do abstracionismo. O dele pertence à vertente dita informal, que é oposta à geometria e se faz com a intuição, não a razão. Na verdade a obra de Bandeira, produzida após os anos 1950, já integra o novo projeto estético advindo da Bienal: abandono da figura e internacionalização.

Para o final deixei o modernista par excellence Di Cavalcanti – que teve a própria ideiade fazer a Semana –, pois cabe-lhe aqui um destaque especial. Ninguém mais em casado que ele, quando se reúnem arte sobre papel e modernismo. Se é verdade que enquanto pintor Di foi desigual, seu desenho foi sempre primoroso. Numa linguagem deexpressionismo mitigado (nada a ver, por exemplo, com o de Anita Malfatti), e influenciado pelas fases líricas de Picasso, conseguiu criar um retrato amoroso, colorido e brilhante do país. Distingue-se dos outros modernistas por seu calor e sensualidade, que embebem as famosas mulatas – seu tema predileto. Mas elas estão longe de esgotálo. Di abordou ainda o morro, o samba, o circo, o carnaval, outras festas populares, os ambientes boêmios, bordéis, paisagens urbanas, suburbanas, praias longínquas, pescadores e suas mulheres após a faina, as flores e os frutos do entorno tropical. O Brasil todo. Pintou entre quatro e cinco dezenas de obras-primas que lhe asseguram aimortalidade. Seus desenhos e pinturas sobre papel certamente estão entre os pontos altos desta mostra.

A destacar ainda nela a qualidade individual dos vários trabalhos, não apenas os de  Di. Com frequência coletâneas desse tipo se limitam a reunir assinaturas importantes, sem cuidar, realmente, de que as obras apresentadas estejam à altura delas. Aqui houve evidentemente esse cuidado, e o resultado é uma exposição supercompetente, significativa e acima de tudo expressiva de mestres do modernismo brasileiro.

Olívio Tavares de Araújo



Dama Paulista– Dama do Modernismo

 

Dama Paulista – Dama do Modernismo

 

No conjunto da retratística de Brecheret, composta de máscaras, bustos, cabeças, retratos a meio corpo ou corpo inteiro, destaca-se o retrato de Olívia Guedes Penteado (1872-1934), denominado Dama Paulista, mármore de 1934. Trata-se uma composição singular. A decisão de Brecheret foi a de elaborar não apenas um retrato personalizado, evocativo, em memória, mas sim de atingir uma dimensão de alegoria atemporal de Olívia Guedes Penteado, imortalizando-a como a Dama do Modernismo. Nessa iniciativa, foi Brecheret pioneiro em homenagear uma das mulheres mais marcantes de nossa história literária e artística, incentivadora e patronesse da arte moderna e seus artistas e literatos.

De fato, Olívia converteu-se ao modernismo em Paris no início dos anos 1920, dos années folles, conhecendo artistas e intelectuais, e viveu toda a efervescência cultural da capital mundial das artes. De volta a São Paulo, instaurou no início da década de 1920 um famoso Salão de Arte Moderna e liderou a expansão e o debate do modernismo, reunindo semanalmente intelectuais, artistas, poetas, escritores, jornalistas e políticos. Era amiga e mecenas de várias personalidades modernistas, entre elas Brecheret, que conhecera em Paris no Salão de Outono de 1923, no qual ele foi premiado com La Mise au Tombeau (Sepultamento de Cristo). Encantou-se com a obra, desejando que ela fosse realizada em granito para o túmulo de seu falecido marido. Foi procurar o escultor em seu ateliê e, desde então, Olívia se tornou grande incentivadora de Brecheret, adquirindo várias esculturas, bem como patrocinando os catálogos das exposições dele em 1926 e 1930.

Estes fortes laços de amizade, de gratidão e de identidade de ideais modernistas impulsionaram o artista a retratar Olívia de acordo com seu relevante papel na expansão do modernismo. A escultura-retrato Dama Paulista retrata a importante dimensão cultural de Olívia, representa-a reclinada, em postura similar à de Mme. Récamier (1777-1849), retratada em 1800 na pintura de Jacques Louis David (1748-1825). Juliette Récamier, amante da literatura, foi nessa época a mulher mais admirada de Paris, promotora de um salão literário, que atraiu os principais círculos literários, políticos e artísticos. Se o escultor Brecheret encontrou convergência de valores das vidas dessas duas mulheres, anfitriãs e animadoras de salões literários e artísticos, por outro lado concebeu plasticamente o retrato, segundo seu código estético-formal de irrepreensível qualidade.

Exalta a grandeza da ação de Olívia, imprimindo à figura feminina um élan monumental e forte luminosidade. De fato, trabalha as formas torneadas em superfícies lisas, com poucos detalhes, permitindo maior incidência e reflexão da luz. É uma imagem de mulher dotada de beleza atemporal, serena e acolhedora. Reclinada, volta-se para o espaço à frente, como anfitriã a receber os visitantes, ao contrário de Mme. Récamier, que está de costas para o observador, apenas voltando o rosto. Brecheret apresenta a figura de Dona Olívia em atitude elegante e graciosa, segurando uma das voltas de seu longo colar de pérolas, um gesto que lhe era usual, como anfitriã do Salão de Arte Moderna e Grande Dama do Modernismo.

Daisy Peccinini

Professora, historiadora e crítica de arte

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